quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

ARTIGO - NOTAS ADICIONAIS AO LIVRO "O TESTAMENTO DO HOMEM DA FLORESTA" - Pedro Vicente Costa Sobrinho


Este pequeno grande livro, O testamento do homem da floresta: Chico Mendes por ele mesmo, foi organizado por Cândido Grzybowski e publicado pela FASE em 1989. O seu conteúdo foi o resultado de uma entrevista que realizei com Chico Mendes, na cidade de Xapuri, entre os meses de novembro e dezembro de 1988. Lembro-me muito bem dos motivos que me levaramA à realização dessa entrevista, que foi considerada o depoimento mais completo até então concedido pelo mais importante líder ecologista da Amazônia.

Em 1988, eu estava realizando uma série de entrevistas com lideranças sindicais do Acre, cuja finalidade era coletar material para dissertação de mestrado, que quatro anos depois veio dar origem ao livro Capital e trabalho na Amazônia Ocidental; quando, então, eu fui procurado pelo professor João Correia Lima que, para atender pedido do pesquisador Cândido Grzybowski, havia assumido a responsabilidade de realizar entrevista com uma liderança sindical do Acre. A encomendada entrevista, por sua vez, serviria de subsídio a um projeto de livro sobre movimentos sociais urbanos e rurais, a ser publicado pelo Latin America Bureau, de Londres. João Correia me pediu para realizar a entrevista, pois alegou que estava sem tempo e, por sua vez, ele também não tinha qualquer indicação ou sugestão de nome para o possível entrevistado; isto ficaria ao meu critério e livre escolha.

No mês de outubro, eu estive com Chico Mendes em Xapuri. Ele estava muito ocupado, devido ao seu envolvimento com as eleições do município; por esse motivo agendei outra data, logo após o pleito eleitoral. Adiantei pra ele que seriam duas entrevistas; uma delas seria de inteira informalidade: conversa entre amigos que subsidiaria a pesquisa que estava realizando para o meu mestrado, e que também iria servir de material para um seu perfil que eu tinha como pretensão vir a escrever. A outra obedeceria a um roteiro, e ainda contemplava pequena remuneração para o entrevistado, o entrevistador e a pessoa que viesse a transcrever as fitas gravadas. Por acordo entre eu e a professora Sandra Cadiolli Basílio, nós transferiríamos nossa remuneração para o entrevistado. Apesar da enfática recusa do Chico, não houve acordo entre nós, e ficou assim mesmo acertada a transferência para ele do pequeno estipêndio.

No mês de novembro, salvo erro, logo depois do pleito municipal eu voltei a Xapuri acompanhado por um grupo de alunos do curso de Agronomia; esses alunos freqüentavam curso de sociologia rural sob minha orientação, e estavam indo a Xapuri para visitar a fabrica de beneficiamento de castanha; conhecer o trabalho da cooperativa de seringueiros e, se possível, ir também até a reserva extrativista do seringal Cachoeira. Na visita ao seringal Cachoeira, nós tivemos o privilégio de ter Chico Mendes como nosso guia, inclusive ele nos levou a percorrer uma das estradas do seringal.

Então, aproveitei a oportunidade para gravar com Chico Mendes parte da entrevista que havia sido encomendada. Logo no começo sentimos dificuldade na aplicação do formulário. O roteiro não oferecia a necessária flexibilidade para colher o depoimento de personagem com o porte e com a riqueza de luta e vida do entrevistado. O entrevistado, com certeza, pela sua dimensão e grandeza não cabia no roteiro, e o jeito fora fugir de certa armadura do questionário e improvisar, sem, todavia, abusar.

Em fins de novembro de 1988, eu voltei a Xapuri para realizar a entrevista que iria informar meu trabalho e o projeto de escrever um perfil de Chico Mendes. Fiz uma parte da entrevista em sua casa e a outra na sede do sindicato dos trabalhadores rurais do município. Não satisfeito com o material coletado após a transcrição das fitas, eu voltei a Xapuri em dezembro, e complementei as duas entrevistas com ele acertadas; uma delas deu origem ao livro: O testamento do homem da floresta – Chico Mendes por ele mesmo, que foi organizado por Cândido Grzybowski; e a outra serviu para informar artigo que publiquei na Revista São Paulo em Perspectiva, em número especial sobre a Amazônia, durante a ECO-92. O artigo: “Chico Mendes - a trajetória de uma liderança” teve como complemento uma parte já textualizada da referida entrevista que, de modo coloquial, intitulei de “Uma conversa com Chico Mendes”; por ser grande parte dela o resultado de um papo informal entre nós em sua casa, ao lado de sua família e de amigos que lá estavam a jogar dominó, e também com a presença de dois policiais que a ele davam segurança.

Recentemente, eu tive a oportunidade de ler a transcrição da entrevista e também de ouvir a voz de Chico Mendes, e fui tentado a publicar esse material na sua totalidade, pois considero essa entrevista o maior depoimento que ele havia feito em vida. Essa entrevista, iniciada em novembro e concluída no dia 2 de dezembro de 1988, teve sua parte última realizada vinte dias antes de Chico Mendes ser assassinado no quintal de sua casa em Xapuri.

No dia 22 de dezembro de 2008, lembramos com pesar os vinte anos de ausência de Chico Mendes, que foi assassinado em decorrência de sua luta pelo direito dos trabalhadores e em defesa do meio ambiente ameaçado da Amazônia. É de se lamentar que embora parte dos assassinos esteja na cadeia, os mandantes do crime e os coiteiros de matadores de aluguel ainda permaneçam impunes. Portanto, é bom que o dia 22 de dezembro seja lembrado de modo vigoroso e até ostensivo aqui no Acre, pois, sem favores, Chico Mendes é a personagem mais emblemática desse estado. E que em sua homenagem, este já esgotado pequeno grande livro, O TESTAMENTO DO HOMEM DA FLORESTA, venha a ter uma nova edição, permitindo que o público volte a ter acesso a esse rico, perene e educativo registro de parte da vida de Chico Mendes, contada por ele mesmo.

Nota: republico esse artigo com algumas correções de datas.

3 comentários:

Anônimo disse...

Olá, Vicente!
Sou jornalista e estou produzindo um documentário sobre o que mudou na floresta amazônica após 20 anos da morte de Chico Mendes. Gostaria de saber como obter autorização para citar alguns trechos do livro O TESTAMENTO DO HOMEM DA FLORESTA, CHICO MENDES POR ELE MESMO. Daremos, é claro, os devidos créditos ao organizador, Cândido Grzybowski. Meu e-mail é dulce.iroa@hotmail.com//

Anônimo disse...

Mary Nakashima, organizadora para editora Martin Claret do livro Chico Mendes por Ele mesmo, comentou: "O depoimento a seguir faz parte da mais completa entrevista de Chico Mendes. Ela foi concedida nos meses de novembro e dezembro de 1988, em Xapuri, ao prof. Pedro Vicente Sobrinho, da Universidade Federal do Acre ... No texto manteve-se a fala de Chico. Trata-se de um relato vivo, palpitante, de alguém que amava a vida, os seus companheiros, o meio em que vivia."

Deisiane disse...

onde eu acho a musica tributo de chico mendes para fazer o downloa...