sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Gastronomia – Minhas Receitas Acreanas: Galinha Picante – Pedro Vicente Costa Sobrinho



Receita Original

1 galinha grande desfiada (cozida), 2 cebolas médias, pimenta do reino à gosto, cenoura, batata, ervilha, palmito, tomate, azeitona, cheiro verde, coentro, chicória, óleo pra refogar.

Modo de Fazer: picar bem pequenos os pedaços de cenoura, batata, tomate, cebola, azeitona. Refogar numa panela: a cebola e quando estiver bem fritinha misturar o frango desfiado e deixar refogar. Misturar todos os ingredientes. Cobrir com água, sal e deixar cozinhar. Quando a água estiver quase seca, dissolver uma colher de maisena num copo de leite e ir jogando delicadamente na galinha e mexendo bem. Serve-se com arroz branco.



Receita Modificada

1 galinha grande sem pele, pés, cabeça e vísceras, 2 cebolas médias fatiadas, 2 dentes de alho esmagados,  2 cenouras pequenas, 6 batatas pequenas,  1 lata de ervilhas drenada, 1 ½   xícara de chá de palmito, 2 tomates grandes sem pele, 1 pimentão verde médio, 1 xícara de chá de azeitonas sem caroço em rodelas, 1 maço de cheiro verde (cebolinha e coentro) e 1 maço de chicória picados, 1 pimenta aji  amarela ou dedo de moça ardida cortada em rodelinhas finas, 1 colher de sopa de ervas finas, 3 copos de água,  2 colheres de sopa de maisena,  2 colheres de leite em pó,  250 ml do caldo do cozimento da galinha, 50 ml de óleo de milho ou girassol; sal e pimenta do reino à gosto.

Modo de Fazer: Cortar a galinha pelas juntas e em pedaços menores a carcaça e o  peito; cobrir com 1 copo de água, temperar com ervas finas e sal, e  cozinhar até ao ponto de desfiar. Coar o caldo que ficou na panela, reservar 250 ml e dissolver nele o leite e maisena. Desfiar a galinha e reservar. Cortar em cubinhos: cenoura, batata, palmito, tomate e pimentão. Numa panela, por o óleo, a cebola e o alho e fritar até dourar; acrescentar galinha desfiada e refogar. Colocar os cubinhos de cenoura, batata, palmito, tomate e pimentão, o cheiro verde e chicória picados e cobrir com mais ou menos 2 copos de água e cozer levemente; acrescentar  azeitona, ervilha e  pimenta aji amarela ou dedo de moça. Quando a água do cozimento estiver bastante reduzida e a galinha no ponto, ajustar o sal e a pimenta do reino, e colocar aos poucos os 250 ml de caldo, sempre mexendo bem. Servir com arroz branco.  8 porções.


AJI - amarilho



Nota: A receita original foi bastante alterada; nela foram quantificados os ingredientes, adicionados outros: pimentão, ervas finas,  caldo de galinha e, sobretudo, a pimenta aji amarela ou dedo de moça ardida, que lhe devolveu a condição de picante, pois esse prato, já também acreano, tem origem na culinária boliviana da fronteira. A chefe Socorro Araújo fez as alterações e executou o prato.

Pimenta dedo de moça



Artigos - Conversas com Cascudo - Enéas Athanázio


 

Revi numa noite destas o documentário “Conversas com Cascudo” que a SESCTV reprisou. É trabalho bem feito, mostrando o mestre na intimidade de seu casarão da Avenida Junqueira Aires e na pujança da sabedoria. Conservou até o fim o cacoete do professor que foi a vida toda, prelecionando, quase declamando lições. Fechou o documentário com a frase, dirigida ao Brasil, que correu mundo, publicada e repetida tantas vezes: “Enxergando pouco e meio surdo, dei de mim o que pude, mas, se for chamado, aqui serei encontrado, pronto a servir como puder ao meu povo e à minha pátria.” Palavras pronunciadas à janela do casarão onde viveu e trabalhou esse “provinciano incurável”, como o apelidou Afrânio Peixoto, com a silhueta inconfundível desenhada contra a claridade, sugando o inseparável charuto. Como Érico Veríssimo em Porto Alegre e Gilberto Freyre no Recife, Luís da Câmara Cascudo (1898/1986) se recusou a deixar a província natal, contribuindo para desmentir o mito de que elevada cultura só é possível nos grandes centros. Todos alcançaram reconhecimento nacional e até internacional, fomentando núcleos culturais importantes ao redor deles em suas regiões.

Decorridos quase vinte anos de sua morte, Cascudo é lembrado como poucos intelectuais brasileiros. Trabalhos de todos os gêneros surgem a respeito de sua obra, embora seja forçoso reconhecer que ainda não teve o biógrafo que merece. As abordagens biográficas existentes são fracionárias e incompletas, deixando de lado aspectos importantes, como as viagens etnográficas que realizou pela África e Portugal, além de outras fases de sua laboriosa vida. Suas Obras Completas vão sendo reeditadas pela Global Editora e ensaios importantes têm sido publicados, merecendo destaque o recente “À mesa com Cascudo”, de Pedro Vicente (*), abordando aspectos muito curiosos. “A cultura popular é o complexo – afirmou o mestre. – Representa a totalidade das atividades normais do povo, do artesanato ao mito, da alimentação ao gesto. Ora, a mim interessa tudo o que é do povo, até o que ele faz no banheiro ou no mato.” Para ele, cultura popular é mais ampla que folclore, como repetiu no documentário referido.

Sendo assim, foi ele buscar os segredos de nossa comida, tema abordado no ensaio de Pedro Vicente. Foi estudar o padrão alimentar da África negra, a transferência da culinária portuguesa para o Brasil, o cardápio indígena e suas influências na alimentação brasileira, sem esquecer as adaptações determinadas pelas condições locais. Considera menores as influências culinárias de outras nacionalidades. O resultado dessas buscas incessantes, cujas notas encheram suas gavetas por longos anos, foi um livro monumental, em dois alentados volumes: “História da Alimentação no Brasil”, clássico da história nacional. Como diz o ensaísta, as investigações de Cascudo iam da água, do pasto, da horta e do pomar à cozinha como fábrica de sonhos.

Tive a inesquecível experiência de passar uma tarde com ele na cidade de Natal, em 1983, três anos antes de seu falecimento. Estava alegre e disposto e muito conversamos. No Memorial Câmara Cascudo, onde se encontra a biblioteca que foi dele, encontrei vários livros meus, todos anotados, sinal de que ele os leu. Chegou mesmo a escrever sobre os contos de “O Azul da Montanha.”

Como disse Drummond, Cascudo deixou de ser uma pessoa, passando a ser nome de dicionário; “o” Cascudo, está “no” 46, Julho de 2005, Págs. 11/20.

Cascudo, consulte “o” Cascudo. Refere-se, é claro, ao “Dicionário Brasileiro de Folclore.”



(*) Revista da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, Número 34, Vol.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Gastronomia - Minhas Receitas Brasileiras: Carne de Sol à Socorro Araújo - Pedro Vicente Costa Sobrinho

Ao sair do forno

1 ½  k de carne de sol (chã-de-dentro), 500 ml de leite integral, 1 cabeça de alho, 150 g de manteiga da terra (manteiga líquida), pimenta do reino, se quiser.


Modo de fazer: Cobrir a carne com água e deixar na geladeira por 4 horas; escorrer bem a água, cobrir com leite e deixar descansar por 3 horas; escorrer o leite, perfurar a carne com a ponta da faca (distribuir bem os furos), e introduzir os dentes de alho; levar ao forno quente numa assadeira ou refratário por 30 minutos; retirar do forno, untar a carne com a manteiga, e voltar ao forno quente por mais ou menos uma hora, ou quando estiver macia e dourada; retirar a carne;  despejar na assadeira uma xícara de água fervente,  fazer de rápido um molho ferrugem, e por sobre a carne.  Servir com feijão verde, macaxeira, arroz branco, farofa e manteiga da terra. 6 porções.


Pronta para servir com o molho da assadeira




quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Gastronomia – Minhas Receitas Acreanas: Quibe de bandeja – Pedro Vicente Costa Sobrinho







½ k de trigo para quibe, ½ k de carne moída (patinho limpo), 1 cebola grande picada, 2 dentes de alho picados, 1/2 xícara de chá de alfavaca picada, 10 folhinhas de hortelã, l colher de chá de cravo, canela, noz moscada e pimenta do reino pilados ou moídos, 4 colheres de sopa de azeite oliva, + ou  --  50 g de manteiga; sal, pimenta do reino e canela à gosto.



Modo de fazer: Lavar, escorrer bem o trigo, e deixar por trinta minutos numa vasilha coberta; moer ( processador ou moinho) a carne, cebola, alho, alfavaca, hortelã e  a  mistura de cravo, canela, pimenta do reino e noz moscada e sal;  misturar  a carne moída ao trigo, acrescentar o azeite e  passar na máquina outra vez,  (ajustar  sal, canela e pimenta); untar com a manteiga uma assadeira de alumínio ou refratário de vidro; espalhar  a  massa na bandeja; com uma faca molhada cortar a massa em quadrados iguais; no centro dos quadradinhos  por uma pitada de manteiga; levar ao forno bem quente por 30 minutos ou até o quibe ficar bem dourado.  Servir com cebola, azeite e hortelã. 6 pessoas.



A receita original de quibe de bandeja  me foi passada pelo meu amigo Marcos Inácio Fernandes(Marquito); disse-me ele, que havia colhido a receita de uma velha e sábia cozinheira acreana que trabalhara na EMATER-AC. Modifiquei a receita, e a chefe Socorro Araújo a executou.






Gastronomia – Minhas receitas Acreanas:Tacacá - Pedro Vicente Costa Sobrinho



2 litros de tucupi temperado, 6 maços  de jambu,  ½ k de goma de mandioca, ½ k de camarões secos médios, 1 maço de chicória picada, 3 copos de água; sal e pimenta do reino, se necessário.



Modo de fazer: Escaldar o jambu; numa panela colocar o tucupi, o jambu, deixar ferver;  acrescentar  chicória,  pimenta à gosto, ajustar o sal e continuar a fervura; fazer com a goma um mingau bem transparente e fino; lavar e hidratar  o camarão.  Servir em cuias apropriadas, ou em pratos de sopa, na ordem seguinte: em cada cuia colocar o mingau à gosto, cobrir com o caldo e o jambu, e  por o camarão. 8 porções.



 A receita original faz parte da pesquisa sobre culinária acreana  que foi realizada,  sob minha orientação, por alunos do curso de Educação da UFAC. Na execução do prato, pela chefe Socorro Araújo, fez-se pequenos ajustes na receita. Cabe observar que se o tucupi a ser utilizado já estiver temperado, é preciso ter todo o cuidado com o sal; o camarão seco merece o mesmo cuidado. Para esse prato dessalgamos levemente os camarões.

Artigos - A candidatura de Vulpiano Cavalcanti em Natal - Cláudio Oliveira



Contavam os antigos militantes que o Partido Comunista Brasileiro preparava a candidatura do médico Vulpiano Cavalcanti à Prefeitura de Natal. Era o ano de 1964 e discutia-se a sucessão do então prefeito Djalma Maranhão. Nascido no Ceará a 15 de março de 1911, dr. Vulpiano radicou-se em Natal nos anos 40, depois de concluir o curso de medicina no Rio de Janeiro. Como se sabe, o golpe de Estado de 1964 interrompeu a processo democrático. O dr. Vulpiano foi uma de suas primeiras vítimas. Preso, teve seus direitos políticos suspensos.


Aquela não teria sido a primeira candidatura frustrada do dr. Vulpiano. Em fins dos anos 1950, o PCB debatia lançar seu nome a deputado estadual. Ocorreu que o professor Luiz Maranhão, também dirigente partidário, fora chamado para uma conversa com uma autoridade religiosa. O clérigo teria sido direto: se o candidato fosse ele, Luiz Maranhão, os religiosos não seriam a favor, mas também não fariam campanha contra. Se o candidato fosse o dr. Vulpiano, sua congregação se oporia. O Comitê Estadual reuniu-se e decidiu então lançar Luiz Maranhão a deputado, afinal eleito em 1958.


Talvez o dr. Vulpiano estivesse identificado com os tempos duros do PCB, quando o partido adotara posições anticlericais e de extrema-esquerda. Enquanto Luiz Maranhão representaria a nova política, favorável a um diálogo com amplos setores da sociedade. Já em 1955, o PCB apoiara a candidatura de Juscelino Kubitschek, do PSD, à Presidência da República. Em março de 1958, manifestava-se a favor da democracia representativa e de um caminho pacífico das transformações sociais. Todavia, quem o conhecia de perto sabia que as posições políticas do dr. Vulpiano eram as mesmas do seu correligionário professor. Ambos formavam internamente no PCB a ala dos renovadores.



Naqueles dias agitados de 1964, Djalma Maranhão, Luiz Maranhão e Vulpiano Cavalcanti se colocavam contra o processo de radicalização política em curso no país. Veio o golpe e, como é sabido, Djalma Maranhão foi deposto da Prefeitura e preso juntamente com os principais líderes esquerdistas da cidade. Inicialmente ficaram detidos no berçário do Hospital da Polícia Militar. Um  dos últimos a chegar, o dr. Vulpiano disparou com o seu habitual bom  humor:



– Viram no que deu a doença infantil do comunismo?



Vulpiano Cavalcanti assistira, estudante no Rio de Janeiro, à derrota dos rebeldes de 1935 da Aliança Nacional Libertadora, de cujo lançamento participou no Teatro João Caetano. Assim, refutou a tese da luta armada contra o regime de 1964. Optou pela chamada resistência democrática, política aprovada no congresso do PCB em 1967.



Obrigado à clandestinidade, Luiz Maranhão transfere-se para São Paulo, onde fará parte da comissão do PCB responsável pelas articulações na Frente Ampla. A proposta, reunindo João Goulart, Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, além de Ulyssses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, Itamar Franco, Aluízio Alves e outros, uniu a oposição ao autoritarismo.



Proibida aquela articulação, os comunistas participam da organização do MDB, que imporá em 1974 e 1978 duas fortes derrotas eleitorais ao regime. Ante a derrota nas urnas e a pressão da opinião pública, o regime se vê forçado à abertura. A Anistia é aprovada, os exilados retornam ao país, os presos políticos são libertados e o dr. Vulpiano tem os seus direitos políticos de volta. Mas ele ainda não terá sua cidadania plenamente restituída. Seu PCB continuará proibido.      



Numa tarde ensolarada, visitei o dr. Vulpiano em sua casa em Petrópolis. Contou-me do telefonema que recebera de Luiz Carlos Prestes convidando-o a abrir uma dissidência no PCB. O legendário “Cavaleiro da Esperança” voltara do exílio e acreditava que era hora de fundar uma frente unicamente de esquerda, dela excluindo os setores democrático-liberais. O dr. Vulpiano discordou de Prestes e mostrou-se favorável à união de todos os setores da oposição como melhor caminho para superar o regime. E assim emprestará seu apoio à campanha de Tancredo Neves, do PMDB, cuja vitória enterrou duas décadas de autoritarismo.



Morreu em novembro de 1988, vítima de pneumonia, quando visitava suas irmãs em Fortaleza. Mas viveu o tempo suficiente para ver seu partido legalizado em 1985 e promulgada a nova Constituição, na qual foram estabelecidas não só as liberdades políticas, como também garantias sociais que melhoraram a vida de milhões de brasileiros. Confirmou-se o seu prognóstico segundo o qual a liberdade era a condição necessária para a construção de um Brasil assentado nos valores da igualdade e da fraternidade.





 Cláudio de Oliveira é jornalista e cartunista.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Gastronomia – Minhas Receitas Brasileiras: Cuscuz à Socorro Araújo - Pedro Vicente Costa Sobrinho



500 g de sêmola de trigo grão duro (médio) Abadia ou Divella,  200 g  de xerém de castanhas  do Pará ou de caju hidratadas, 1 cebola do reino grande fatiada, 4 dentes de alho graúdos amassados, 4 tomates maduros grandes sem pele e sementes picados, 1 pimentão médio vermelho sem a pele picado,1 cenoura média ralada, 3 latas de atum branco  sólido drenadas, 4 colheres de sopa de salsinha, 2 colheres de sopa de manteiga sem sal, 100 ml de azeite de oliva extra virgem, 500 ml de água fervente; sal e pimenta do reino à gosto.

Modo de fazer: colocar a sêmola de trigo num vasilhame de vidro; ferver a água com 2 colheres de sopa manteiga e 2 colheres de azeite; despejar a água fervente sobre a sêmola e deixar descansar por 15 minutos, a seguir deixar a massa bem soltinha com um garfo ou com as mãos; numa panela grande refogar a cebola, alhos até dourar;  juntar e refogar a cenoura, pimentão e tomate ; acrescentar a castanha e logo depois o atum e cozer por  10 minutos;  juntar a sêmola e misturar bem aos temperos; salgar e apimentar à gosto; finalizar com a salsinha.


Nota: O presente prato tem como referência a receita do Cuscuz Marroquino, de Zezé Pina, no seu belo caderno de culinária "A Panela da Zezé". 

Gastronomia - Minhas receitas brasileiras: Frango com Ora-pro-nobis - Pedro Vicente Costa Sobrinho



1 frango grande resfriado sem pés e cabeça, 1 cenoura média picada, 1 cebola do reino grande ralada, 4 dentes de alho graúdos amassados, ½ pimentão em cubinhos, 4 tomates médios sem pele e sementes em cubinhos, 1 maço de cheiro verde (cebolinha e coentro) picado,  50 ml de óleo de milho ou girassol, 1 colher de sopa de colorau, 10 xícaras de chá de folhas de  ora-pro-nobis cortadas em tiras, 1 cubo de caldo de galinha diluído em 300 ml de água fervente; sal e pimenta do reino à gosto.



Modo de fazer: Lavar e cortar o frango pelas juntas, carcaça e peito em pedaços menores, retirar a pele; refogar no óleo a cebola e alho até alourar; acrescentar cenoura, pimentão e cheiro verde; refogar os pedaços de frango, fígado, coração etc. nos temperos até dourar; acrescentar o tomate e o caldo de galinha com o colorau diluído; quando o frango estiver quase cozido acrescentar o ora- pro- nobis, deixar cozer em fogo baixo por mais ou menos 15 minutos. Servir com arroz branco e farofa. 6 porções.  

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Gastronomia – Minhas receitas brasileiras: Galinhada à Zé Paulo Netto - Pedro Vicente Costa Sobrinho


1 frango grande sem os pés e cabeça, 2 cenouras pequenas raladas, 1 cebola fatiada, 4 dentes de alho amassados, 1 maço de coentro e cebolinha picados, ½ k de tomates maduros sem pele picados,1 pimentão médio picado, 1 tablete de caldo de galinha dissolvido em ½ litro de água fervente, 50 ml de óleo de milho ou de girassol, 1 colher de sopa de cúrcuma (açafroa), 1 xícara de chá de azeitonas verdes sem caroços, 1 xícara de chá de ervilhas, 2 colheres de sopa de salsinha picada, ½ k de arroz parbolizado, pimenta do reino e sal à gosto.



Modo de fazer:  Tirar a pele  e cortar o frango pelas juntas , a carcaça/peito em pedaços menores;  numa panela de bom tamanho, colocar o óleo e  dourar a cebola e o alho, acrescentar a cenoura, o coentro/ cebolinha e o pimentão; refogar os pedaços de frango (inclusive coração, moela, fígado etc.) com os temperos e deixar alourar; acrescentar o tomate e cozer mais um pouco até ficar pré-cozido; colocar o arroz e refogar; diluir a cúrcuma no caldo de galinha e despejar na panela; colocar pimenta do reino e ajustar o sal; 10 minutos antes do arroz e o frango estarem cozidos colocar  ervilhas e azeitonas; finalizar com a salsinha.



Receita modificada de uma “Galinhada” servida pelo escritor José Paulo Netto, e Balkis, em seu apartamento no edifício verdão da Rua Wanderley, em São Paulo, no dia do seu aniversário. Os convidados foram Celso Frederico e Enid, Bertelli e Margareth, Luiz Eduardo Pedrozo, Raul Mateus Castell e Teresinha, eu e Sandra. O prato foi executado pela Chefe Socorro Araújo.

Cinema - ROTA DA MÚSICA DO CINEMA - Fernando Monteiro


 
Nino Rota

 
      Defendo (sempre defendi) que a música composta para o cinema, as trilhas sonoras feitas para filmes (portanto, sob encomenda) provavelmente respondem pela “grande música” – no mínimo da metade do século 20 para cá.

      Estamos no mês em que se comemoram cem anos de nascimento de um dos maiores autores de trilhas da história da chamada "sétima arte": Nino Rota, italiano de Milão, nascido numa família de músicos como qualquer Google da vida poderá informar. Foi aluno de Casella, no conservatório de Santa Cecília (Roma), e, obtendo bolsa de estudos no Curtis Institute of Philadelphia, ouviu aulas de composição de Rosario Scalero e, de orquestração, pelo então professor no CIP, Fritz Reiner, maestro húngaro radicado nos EUA.

       Rota ficou conhecido como o músico de Federico Fellini por excelência. Compôs trilhas para outros realizadores italianos – Renato Castellani, Mario Monicelli, Franco Zeffirelli e Eduardo de Filippo –, além de compor partituras para longas-metragens do francês René Clément e de King Vidor e Francis Ford Coppola, dois diretores americanos de gerações distanciadas no tempo. Foi, entretanto, o seu trabalho para o grande Fellini que levou Nino a se tornar inclusive "popular", no sentido pop da cultura de massa – muito próximo daquela solidez que "se desmancha no ar", para lembrar o título de um livro que foi moda e todo mundo já praticamente esqueceu.    

        Não importa. Nino Rota jamais estará entre nomes esquecidos. Houve uma “impregnação” da sua música naquelas imagens criadas pelo cineasta de La Dolce Vita, e vice-versa. Talvez até mais vice do que versa: alguma das suas músicas, de repente ouvida num bar, num elevador com som-ambiente ou num quarto de motel de bom gosto, lembrará Fellini e, de imediato, fará o transporte para o clima onírico ou (diria Orson Welles, com algum veneno) mais ou menos “suburbano”, à la Itália, daquelas fábulas fílmicas fellinianas que o músico milanês ajudou a tornar ainda mais evocativas.

        O que busca um diretor de cinema quando pede que um profissional componha a trilha de determinada obra cinematográfica? Ora, ele pede muito mais do que um mero “acompanhamento” tipo o daqueles pianistas que, ao vivo, musicalmente comentavam a ação dos velhos filmes mudos, nos “cine-poeira” que desapareceram. Desde essa época, a música foi se tornando parte intrínseca, um elemento indispensável, uma das dimensões artísticas essenciais ao que é capaz de expressar a linguagem por imagens vinte e quatro vezes por segundo.

        Essa música pode ser composta diretamente para a obra cinematográfica nova ou pode ser aproveitada do acervo de um compositor de outra época, como fez Stanley Kubrick – cumprimentos também para o supervisor musical H. L. Bird – ao “escalar” um trecho de Richard Strauss (1864-1949) para a abertura de 2001: uma Odisséia no Espaço.

         A abertura em questão – Also sprach Zaratustra, de Strauss – tinha existência própria, anterior ao filme de ficção-científica de 1968, porém isso se “apagou”, em parte, e ela se tornou, para muitos, a “música de 2001”. Isso porque houve a tal impregnação, aconteceu o processo de imantação de uma pelo outro (a música pelo filme, este pela música), e estamos conversados. Em tempo: esta conversa aqui escrita será bem “desconceitual”, com aspas, sobre a música do cinema como a Grande Música do século passado, sobre Nino Rota e outros fundamentais compositores e arranjadores do cinema, você começando talvez até a assoviar algum pedaço de trilha sonora que também impregnou o seu ouvido...

            

        PRIMÓRDIOS DA CINE-MÚSICA



        Curiosamente, Claude Debussy chegou a comentar que Richard Strauss era uma “compositor cinematográfico”, naqueles primórdios da invenção dos irmãos Lumière, porque a obra de Strauss sugeria uma “fonte de imaginação cinemática”, ou seja, faria pensar numa cadeia de imagens articuladas pelo som de uma grande orquestra.

         Antes do cinema – pela via aproximada da ópera, é claro –, o alemão Richard Wagner (1813-1883) também seria já “cinematográfico” nos seus dramas musicais – Lohengrin, Tannhauser, Tristão e Isolda, o ciclo do Anel dos Nibelungos e outros – guiando-se pelo leitmotiv, narrativamente, e sendo a “idéia-base” (ou argumento, no cinema) o motivo condutor tanto do trabalho wagneriano típico quanto das sinfonias programáticas de um Berlioz, nas quais determinados personagens possuem um subtema musical e tudo o mais.

          Isso foi aproveitado e desenvolvido pelo evoluir da música “para cinema”. Ela atraiu, por sinal, aqueles músicos um tanto mais conservadores (digamos assim) cujo gosto pela sinfonia havia se tornado mais ou menos deslocado no mundo da música erudita, pela vigência do sistema harmônico baseado no atonalismo – destacando-se Arnold Schoenberg (1874-1951), com propostas dodecafônicas buscando dissonâncias, juntando acordes fora da hierarquia, e, vale dizer, aproveitando os sons mais inesperados numa sala de concertos.

          Ora, nas trilhas das narrativas cinematográficas tudo continuava, entretanto, correspondendo a princípio, meio e fim (mesmo que “não necessariamente nessa ordem”, conforme costumava lembrar o irônico Jean-Luc Godard), e o “antigo” compositor sinfônico podia, nelas, voltar a dispor de um corpus narrativo para o seu trabalho.

          Foi o que Nino Rota encontrou nos filmes de um Fellini olhando para trás, para Rimini ou para Roma, poeta reminiscente daqueles “boas-vidas” que não gostariam de se separar das suas infâncias, ou, então, jornalista errante se atirando na longa jornada noite adentro, em torno de si mesmo (e da Fontana di Trevi), acompanhando estrelas e anônimos da Roma tão velha que, ainda agora, pode fazer acontecer qualquer coisa, na notte brava...

           Material bom para Nino – rota segura (esse trocatrilho era incontornável) para o maestro cuja jornada pessoal terminou em abril de 1979, entre vinhos e rosas, aos 67 anos. Bem cedo, portanto. Ficaram as suas trilhas emocionadas e cheias de uma melancolia que tem, na verdade, mais dois mil anos de história no inconsciente coletivo italiano.



            PELAS TRILHAS DA “TRILHA”



            Onde – e como – pode a música ajudar um filme?

            Foi essa a pergunta que Rota ajudou a responder, indicando que a trilha jamais poderia ser apenas um elemento decorativo, por exemplo. Ele e outros grandes compositores do cinema viram a música ser usada como foco narrativo (nos filmes musicais, por exemplo) e com função climática, duplicando a força das imagens em cada sequência ou cena planejada para ser “sublinhada” por temas carregados de intenções específicas. Trataremos disso aqui – deixando os chamados “musicais”, propriamente ditos, para outra ocasião.

             Charles Chaplin deu um grande impulso à concepção da trilha essencialmente “cinematográfica”, até porque o seu ouvido era o de um gênio que teria o que dizer em qualquer campo: cinema, teatro, circo, literatura, pintura, quase tudo. As trilhas dos filmes de Carlitos foram compostas pelo célebre diretor e produtor de si mesmo (“Smile” tornou-se um hit internacional, sem prazo para sair do gosto popular), sendo o Vagabundo um eterno apaixonado pelo lamento daqueles violinos “ciganos” dos anônimos músicos de rua, notas marcantes na sua infância quase de David Copperfield – o personagem de Charles Dickens, não o mágico milionário.

              A força da música, nas produções de Chaplin, é tão incisiva que, na última delas (e a mais fraca: A condessa de Hong-Kong, de 1967), só restou mesmo uma bela composição recordando tristezas dos fugitivos ou emigrados do novecento que o substrato de comédia medíocre do roteiro da “Condessa” homenageia da forma mais pífia – enquanto o diretor envelhecido tentava dirigir Sophia Loren e Marlon Brando aparentemente sem perceber que o seu tempo havia passado.

           Não importa quanto o tempo passe, o Max Steiner que compôs a trilha de “E o vento levou” (1939) sempre estará associado ao destino cinematográfico da indomável Scarlet O’Hara. A música desse clássico de Hollywood é impregnada daquele romantismo típico do Sul, mas também lembra um pouco o fio melódico da trilha sonora de “O morro dos ventos uivantes” (igualmente de 1939) – o filme dirigido por mestre William Wyler, e não as anêmicas versões mais recentes, coloridas e novelescas no reforçar de um romance literariamente já forte etc. Ninguém precisa fazer mais do que Wyler fez com as urzes dobradas pelo vento tangendo dois fantasmas condenados a prosseguir abraçados como demônios enfrentando o céu e preferindo recordar o inferno do seu amor “selvagem” nas charnecas. É isso o que a trilha do filme também expressa,   assinada pelo inspirado Alfred Newman (1901-1970).

           Trilhas felizes – em termos de inspiração de maestros contratados para duplicar a força das imagens – fazem isso (e sempre o farão): ficam nos nossos ouvidos, nem que seja pela música-tema de um “Casablanca” que se assovia, ainda hoje, ao encontro de namoradas nos subúrbios do mundo: You must remember this / A kiss is just a kiss, a sigh is just a sigh...             

            Foi Herman Hupfeld o autor dessa letra, assim como do tema tocado ao piano e cantado por Dooley Wilson, contra a vontade de “Rick”, o proprietário ranzinza do clube noturno de uma Casablanca de papelão em que ninguém presta atenção – todo mundo fascinado pelo clima romântico (à antiga) que o score ajudou a criar, junto com o preto-e-branco e a química entre Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, no filme de 1942.            

            Esse tema é tão hipnótico – musicalmente falando – quanto o composto por David Raksin para “Laura”, filme-noir de 1944, dirigido por Otto Preminger, baseado na novela policial homônima (escrita pela pequena bruxa Vera Caspary).            

            Leitores, eu poderia me estender por várias menções de músicas de filmes clássicos preferidos de mães e tias – mas não se trata exatamente do foco deste texto, essas músicas “inolvidáveis”, premiadas com Oscar ou não: “Anastácia”, “Suplício de uma saudade”, “Lara” (sem “u”), a moderna “Alfie”..

            Não. Aqui, estamos tratando das partituras de grande música – num conjunto sinfônico – composto por nomes como Rota, George Auric, Henry Mancini, Leonard Bernstein, Dmitri Tiomkin, Jerry Fielding, Jerry Goldsmith, John Williams, Michel Legrand e outros mestres das trilhas para filmes fáceis ou difíceis, românticos ou menos românicos. Todos trabalharam com o melhor de si e criaram obras quase autônomas – inclusive o nosso Heitor Villa-Lobos –, as quais “colaram” nas respectivas imagens cinematográficas, sim, porém também se emancipando, às vezes, como criação musical seguindo toda uma tradição sinfônica e fazendo o século passado, principalmente na sua segunda metade, possuir compositores de respiro mais largo do que os John Cage da vida (com todo respeito ao músico dos estertores da música).



            MÚSICA DO ESPLENDOR, AINDA



           A tese  – foi dito logo de início – é que as trilhas sonoras foram (e são) grande Música continuada por temperamentos fundamentalmente românticos, no sentido da frase de Tzvetan Todorov: “toda grande arte é de índole romântica”.

          Dois gigantes da composição erudita – Prokofiev e Shostakovich – foram convocados pelo seminal Eisenstein para criar trilhas originais para filmes (Alexander Nevsky, Outubro, Ivan o Terríve etc) que o cineasta russo conseguiu realizar, apesar do   clima opressivo criado por “Comissários do Povo” devotados a abalroar a obra de gênios autênticos como Sergei, na União Soviética sob a mão de ferro de Stálin.

           Depois do grande cineasta russo, foi alguém bem diferente – Walt Disney, por incrível que pareça – que, em 1939 (um ano rico para a música do cinema, já se vê), teve a ideia de forrar com as melhores partituras o seu renovador Fantasia. “Forrar?” O verbo não é bem esse. Pelo contrário, nesse clássico do desenho animado é a música que domina a ação dos personagens retirados do mundo disneyano, em peripécias imaginadas a partir da Toccata e fuga em ré menor, de Bach, a Ave Maria de Schubert, A noite no Monte Calvo, de Mussorgsky, a Sinfonia pastoral de Beethoven, O Aprendiz de feiticeiro, de Paul Dukas, e de música para balés (a suíte Quebra-nozes de Tchaikovsky, A sagração da primavera de Stravinsky e a Dança das horas, de Ponchielli), tudo inovadoramente “recoreografado” em termos de desenho cinematográfico concebido como obra de arte, sob a supervisão do maestro Leopold Stokowski.

            Músicos da mesma alta linhagem de Stokowski trabalharam em Hollywood – mais do que em outros lugares. O austríaco naturalizado americano Billy Wilder convocou seu conterrâneo Franz Waxman (1906-1967) para compor a trilha do filme que “biografou” a Meca do cinema, o comovente e ao mesmo tempo dramático "Crepúsculo dos deuses" (1950). A música estava lá, para ajudar o mito da película   essencial do prolífico Wilder.

            Aqui já citado, Dmitri Tiomkin, russo de São Peterburgo (onde nasceu em 1894), criou a música para “Horizonte Perdido”, um dos filmes mais emblemáticos do americaníssimo Frank Capra, o cineasta do New Deal. Tiomki seguiu trabalhando – sempre com brilho pessoal – para outros diretores famosos, até falecer em 1979.

             Não foram poucos os westerns que se beneficiaram de belas trilhas criadas por compositores americanos compondo na esteira do erudito Aaron Copland, como foi o caso de Victor Young (1900-1956) e Elmer Bernstein (n.1922). No setor do filme policial, não se pode esquecer Bernard Herrmann (1911-1975), músico preferido de Alfred Hitchcock. Ambiguidade, incerteza, dúvidas e suspeitas estavam também nos temas musicais inquietantes desse colaborador fundamental do “mestre do suspense”.

             Filmes épicos contaram com o senso de grandiosidade – e o refinamento – de um Miklos Rozsa (1907-1995), autor da premiada trilha do Ben-Hur de Wyler, e também com o alto talento de um Mario Nascimbene, criador do score de “Barrabás” (1961), de Richard Fleischer, uma trilha que antecipou muito do que o avançado Peter Gabriel viria a fazer para “A última tentação” (1988), de Martin Scorcese. Maurice Jarre compôs do único modo possível para o caso de um superespetáculo de caráter curiosamente “intimista”, como foi o Lawrence da Arábia, produzido e dirigido por Sir   David Lean, em 1962, vencedor de sete Oscar (incluindo para a música de Jarre, que chegou ao requinte de utilizar instrumentos exóticos, no seu arranjo final).

             Dez anos depois, Astor Piazolla deu uma espécie de tom essencial para “O último tango em Paris”, filme de Bernardo Bertolucci lançado no meio de escândalo que pouco teve a ver com a seriedade do roteiro construído em torno do tema da angústia existencial, assunto perfeitamente repercutido pelo tango moderno do filme. A música do brasileiro Sérgio Ricardo para Deus e o Diabo na terra do sol (1964) foi responsável por parte do impacto da obra de Glauber Rocha, que ainda hoje se faz sentir, quando são ouvidas as músicas cantadas na trilha, já clássica, pela voz de taquara rachada do compositor do violão lançado contra a plateia de um festival daqueles anos memoráveis...

             Foi mais ou menos na época em que a primeira produção da série 007 nos apresentou uma “marca” musical praticamente indissociável do respectivo “produto”  fílmico: o som do maestro John Barry (falecido em janeiro deste ano) costurando as aventuras de James Bond, com Dame Shirley Bassey imprimindo suas fortes interpretações gritadas em pelo menos duas ou três músicas que vinham do mundo da guerra fria diretamente para os ouvidos de espectadores das províncias mais distantes da espionagem. Naquela época, Ennio Morricone também estourava, com hits provenientes do faroeste-spaghetti, e o setor da composição musical para a tela nunca mais seria o mesmo, depois desses dois nomes capazes de tornar o trabalho dos autores de trilhas uma parte comercialmente considerável do projeto de uma grande produção como “Era uma vez na América” – um dos melhores exemplos da arte de Morricone, ainda vivo e incorporado, como autor, ao repertório de muitas orquestras eruditas que querem se aproximar do público não só pela chamada “grande música". 

              Enfim, deveria ser reivindicado esse mesmo estatuto para as trilhas do cinema, sim – num século que viu as pautas sinfônicas entrarem quase em becos sem saída, desde o dodecafonismo difícil para as plateias mais amplas. São elas que mandam, hoje, em termos da cultura de Mercado. No escurinho dos cinemas, isso significa quase que o único refúgio para arranjadores e compositores como Nino Rota – pelo menos enquanto dure, ainda, o prazer de usufruir da beleza sonora impregnada da força imagética de bons filmes realizados não só segundo estritas regras de oferta-e-procura, em salas nas quais ruídos estrondosos nas caixas de som não prevaleçam, por exemplo, sobre músicas como a de Shane (de Victor Young) sumindo na “elegante melancolia do crepúsculo”, conforme diria Charles Chaplin.     

domingo, 15 de janeiro de 2012

Gastronomia - Minhas Receitas Acreanas: Porco no Tucupi - Pedro Vicente Costa Sobrinho




2 e meio kg de costeletas de porco, l cebola média ralada, 4 dentes graúdos de alho esmagados, 1 xícara de vinagre de vinho branco, 1 maço de cebolinha e coentro picados, 2 maços de jambu, pimenta do reino e sal  à gosto, 1 maço de chicória, 1 emeio litro de tucupi temperado.


Modo de fazer: cortar as costeletas pelas juntas, colocar de véspera no molho: cebola, alho, vinagre, cebolinha, coentro, sal e pimenta do reino; escaldar o jambu; cozinhar ao fogo médio as costeletas com o molho, as folhas de chicória e o tucupi por 1 hora ou até ficar quase cozida, acrescentar os galhos de jambu e cozer por mais ou menos meia hora; servir com arroz branco e farinha d’ água amarela. 6 porções.




 Porco no tucupi me foi servido pela primeira vez, em Rio Branco, pelo jornalista Élson Martins; modificou-se a receita original e a chefe Socorro Araújo, ao confeccionar o prato, ainda fez alguns ajustes já devidamente incorporados à receita. Tomar cuidado com o sal, pois o tucupi temperado já vem salgado.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Gastronomia - Minhas Receitas Acreanas: PATO NO TUCUPI – Pedro Vicente Costa Sobrinho



Pato no Tucupi (Receita original)



 1 pato, tucupi, jambu, pimenta de cheiro, coentro, chicória e alho.


Modo de Fazer: depois de morto, depena-se, lava-se com limão e temperar-se com uma mistura constituída de vinha d’alho, vinagre e sal, pondo-se em seguida na forma untada com manteiga, não se esquecendo de passar colorau. Em seguida, vai ao forno, devendo assar mais ou menos duas horas.
Quando estiver bem “tostado”, trincha-se o pato, em pedaços de tamanho regular que em seguida são mergulhados no tucupi e fervidos durante uma hora no caldo do próprio tucupi e mais jambú, chicória e coentro. Colocar as folhas na ordem mencionada atrás. Quanto ao jambú há de ser ter um cuidado especial, antes de colocá-lo no caldo do tucupi tem-se de fervê-lo  escaldá-lo por duas vezes. Faz-se o molho de pimenta de cheiro, que é o tempero principal do “pato no tucupi”. O pato é servido ensopado no tucupi. Serve-se à mesa com farinha ou arroz  a gosto.



Pato no Tucupi (Receita modificada)


1 pato, 2 litros de tucupi, 100 ml de vinagre de vinho branco, 4 colheres de sopa de azeite de oliva, 2 limões, 50 gramas de manteiga, 2 maços de jambu, 1 maço de coentro,  1 maço de cebolinha, 1 maço pequeno de chicória (coentrão), 6 dentes de alho, 2 pimentas de cheiro,  2 colheres de sopa de colorau, sal e pimenta do reino à gosto


Modo de fazer: Abater, depenar e limpar bem o pato, eliminar pés e cabeça, passar o limão; temperar o pato inteiro com azeite, alho esmagado, vinagre, pimenta do reino, coentro e cebolinha picadinhos; deixar no molho pelo menos por duas horas; passar colorau, untar com manteiga e assar ao forno médio, num prato refratário, até ficar tostado; usar a sobra do molho para regar;  retirar do forno, trinchar o pato em pedaços mais ou menos iguais, e mergulhar no tucupi, deixar descansar por ¼ de hora; cozer ao fogo médio por mais ou menos  45 minutos, com as folhas de chicória, os galhinhos de jambu e as pimentas de cheiro. Ajustar o sal. Escaldar o jambu antes de usar no cozimento. Servir o pato ensopado no tucupi, com arroz branco, farinha d’ água amarela e molho de pimenta de cheiro do Pará. (6 porções)





 A receita original foi modificada para quantificar e acrescentar outros ingredientes. O tempo de cozimento também foi alterado. Deve-se tomar muito cuidado com o sal, pois o tucupi temperado já vem devidamente salgado. O prato foi realizado, com ajustes e mestria, pela chefe Socorro Araújo.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Gastronomia - Minhas Receitas Acreanas: Rabada de Boi no Tucupi - Pedro Vicente Costa Sobrinho


Rabada de Boi no Tucupi (Receita original)

1  rabo de boi,  jambu, chicória, cebola, cebolinha, sal, alho e pimenta do reino.

Modo de fazer: Tempere a rabada de véspera; cozinhe- a no tucupi com todos os temperos.  Escalde o jambu para que fique um pouco macio, junte à rabada e deixe dar uma fervura. Sirva com arroz branco e farinha d”água.

Chicória e Jambu


Pimenta de Cheiro do Pará


Rabada de Boi no Tucupi (Receita modificada)

1 rabo de boi com aproximadamente 2 e meio kg, 2 maços de jambu, 2 cebolas médias raladas, 1 colher de sopa rasa de colorau, 5 dentes de alho amassados, 1 maço de chicória,  1 maço de cebolinha, 4  colheres de sopa de vinagre, 1 colher de azeite,  sal e pimenta do reino à gosto.


Modo de fazer. Tempere a rabada de véspera com alho, cebola, cebolinha, chicória, vinagre, azeite, colorau, sal e pimenta do reino. Cozinhar por ½ hora, fogo médio, com todos os temperos e mais dois copos de água. Acrescentar o tucupi e cozinhar por mais 1 hora.  Desengordurar se necessário. Escaldar o jambu pra amaciar. Colocar na panela e cozinhar por mais 10 minutos. Servir com arroz branco, farinha d’água amarela e molho de pimenta de cheiro da Amazônia. (6 porções)



A receita original foi modificada para quantificar e acrescentar alguns ingredientes, e também definir o tempo aproximado de cozimento. As alterações e execução do prato foi de responsabilidade da chefe Socorro Araújo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Gastronomia - Minhas Receitas Acreanas: Arroz das Selvas - Pedro Vicente Costa Sobrinho


ARROZ DAS SELVAS (Receita tradicional)

1/2 kg de jabá, 2 xícaras de arroz, 2 bananas compridas, ovos fritos, cebola e temperos verdes (coentro e cebolinha)

Modo de fazer:  Escalda-se a jabá. Em seguida moer e temperar com todos os temperos. A parte faz-se um arroz comum e mistura-se com o picadinho do jabá. Serve-se com as bananas e ovos fritos.

ARROZ DAS SELVAS (Receita modificada)

½ kg de jabá  (charque), 2 xícaras de arroz, 1 cebola média fatiada, 4 dentes  de alho picados,  ½ pimentão vermelho fatiado em cubinhos, 1 colher de chá de colorau, 4 colheres de sopa de óleo vegetal, coentro, chicória (coentrão), cebolinha picados, à gosto; 2 bananas compridas cortadas ao meio e fatiadas; 4 ovos;  750 ml de água fervente; sal e pimenta do reino à gosto.     

Modo de fazer: Dessalgar e reidratar o charque, cortar em cubinhos; numa caçarola por o óleo e alourar a cebola e o alho, refogar os cubinhos de charque e colocar a cebolinha, coentro, chicória e o colorau, deixar fritar sem desidratar; acrescentar o arroz e mexer bem; cobrir o arroz com água fervente e cozer; pouco antes do arroz estar cozido, provar o sal e acrescentar o pimentão; decorar com folhinhas de chicória. Servir com as fatias de banana comprida fritas e ovos estrelados. ( 4 porções)





A receita do arroz das selvas consta da pesquisa que orientei sobre culinária acriana feita por alunos do curso de Educação da UFAC. A receita original foi modificada pela chefe de cozinha  Socorro Araújo. Nota: evitar o  uso de charque do Frigorífico Potengy, pois a carne usada como matéria prima (ponta de agulha) não é adequada para confecção dessa iguaria.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Memórias - Varal das Lembranças: Política, sindicato e comunismo na minha formação (6) - Pedro Vicente Costa Sobrinho

Leon Trotski
Os companheiros Trotskistas

Lembro-me certa vez de que eu e Lenito França nos encontramos em Recife na redação do jornal “A Hora”, no edifício Vieira de Carvalho. Fomos a livraria do PCB, que estava instalada um  ou dois andares abaixo do mesmo prédio, para ver as novidades. A livraria sempre dispunha de livros do catálogo da Editorial Vitória, editora do PCB, e da Civilização Brasileira; compramos alguns livros e depois  juntos nos dirigimos a Estação Central para pegar o trem que nos conduziria de volta à Jaboatão. Durante o trajeto, ao passar pela Casa de Detenção, Lenito sugeriu que fizéssemos uma visita aos companheiros trotskistas (Partido Operário Revolucionário Trotskista) que ali ora se encontravam aprisionados por ordem, estranhamente, do governador Miguel Arraes, inclusive ameaçados de enquadramento na Lei de Segurança Nacional. Atrasamos um pouco a viagem de volta e fomos até eles.

Dos que ali se encontravam detidos, três deles já conhecia de nome: Carlos Montarroyos, Ayberê e Julio Santana, este liderança sindical. Também tivera notícias sobre o assassinato de Jeremias (Paulo Roberto Pinto), em Itambé. Não me lembro se Joel Câmara também estava juntamente com eles detido. Ao todo, salvo erro, os presos políticos eram cerca de sete: Júlio Santana, Zeferino (Joca), Antonio Joaquim (Chapéu de Couro), Carlos Montarroyos, Cláudio Cavalcanti, Ayberê e Abdias. Afora o assunto relacionado com a emboscada armada pelos latifundiários de Itambé que resultou na trágica morte de Jeremias e no fuzilamento de três camponeses, a conversa, grosso modo, foi agradável e descontraída, versando  sobre questões da conjuntura política nacional e internacional, sendo  Cuba, o revisionismo soviético e o imperialismo americano  os temas dominantes. Além disso, comentou-se sobre o estranho comportamento do governo Arraes que, sem mandado judicial, os havia detido, caracterizando o ato autoritário como simplesmente político; com certeza, a decisão era um ato inútil de afago aos  latifundiários e usineiros. No caso de Júlio Santana, Joca e Chapéu de Couro a acusação é de que haviam invadido a sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Barreiros, Rio Formoso e Serinhaém, que estava sob intervenção da Delegacia Regional do Trabalho. E ainda, falou-se sobre o alardeado “Acordo do Campo”, assinado pelo Governo Arraes e os patrões da lavoura canavieira, pelo qual os plantadores de cana e usineiros assumiam o compromisso com o reajuste salarial de 80% para os trabalhadores, pagamento do13° salário  no mês de dezembro, com base no salário de 31 de outubro/1963, e  assinatura da carteira profissional no prazo de 60 dias. O fecho da conversa foi sobre a manifestação que seria convocada para protestar contra a prisão deles, através de ato público a ser realizado na Praça Dantas Barreto, as 10:00 h do dia primeiro de dezembro. Sempre é bom realçar que de um lado estavam os revisionistas, Lenito e eu, e do outro lado os revolucionários, eles.  Já fazia um bom tempo de conversa, quando até nós chegou a notícia de que o presidente dos EUA, John Kennedy, fora assassinado em Dallas, estado do Texas. Um dos companheiros ouvira a notícia através do Repórter Esso, em edição extraordinária. Um silêncio sepulcral tomou conta do ambiente. De modo premonitório um dos presentes disse: “uma onda de golpes de estado vai ocorrer na América Latina, o Brasil, com certeza, é a bola da vez”. Saímos da Casa de Detenção preocupados, mas Lenito era muito otimista e, por sua vez, achava que faltava a direita uma liderança no meio militar para desfechar a ação golpista. A ilusão quanto ao esquema de sustentação militar de Jango e também a crença exagerada na força do movimento sindical encabeçado pelo CGT nos davam uma visão distorcida da conjuntura política vigente, levando-nos a acreditar que os gorilas civis e militares, desse modo, cá no Brasil não teriam vez. Esse tempo era 22 de novembro, cinco meses depois o golpe civil- militar foi desfechado.

No dia primeiro de dezembro fui a Praça Dantas Barreto participar do comício pela libertação dos presos políticos. Muita gente compareceu ao ato público convocado pelo CONSINTRA, Federação dos Sindicatos Rurais, Ligas Camponesas, e mais os Sindicatos de Trabalhadores Rurais de Palmares e Jaboatão. O apoio do PCB ao ato público estava mais que explícito, pois dele participou organizações de notório controle do partido. Lembro-me ainda dos nomes de alguns oradores: Francisco Julião pelas Ligas, e Amaro Luis de Carvalho (Capivara), liderança do PCdoB.  Além disso, salvo engano, um dos oradores foi o líder bancário Antonio Fausto do Nascimento, Secretário Assistente do Governador Arraes, por indicação do PCB. Após o encerramento do comício, parte dos presentes em protesto se dirigiu em passeata até a Casa de Detenção. Os presos foram autorizados a se encontrar e falar com os manifestantes, e logo depois do improvisado ato, os portões do presídio foram fechados.  Lembro-me ainda que antes de se dirigir ao presídio os manifestantes passaram empunhando bandeiras e pronunciando palavras de ordem diante do Palácio das Princesas; e que, naquele momento, Arraes recebeu o grupo organizador do comício, e assumiu o compromisso de libertar o quanto antes os prisioneiros. Esse fato realmente veio a acontecer em Janeiro de 1964, quando todos ficaram livres da prisão e de serem enquadrados na famigerada LSN. Até hoje eu me pergunto por que Julio Santana ficou ainda detido. Meus amigos Juliano Siqueira e Luciano Almeida foram presos na Casa de Detenção de Recife pela Ditadura Militar na década de setenta e encontraram lá o velho Júlio; segundo eles, Júlio Santana veio a sair de lá em 1972, e, logo depois, souberam a notícia do seu falecimento.



Profissional do PCB de curta duração

No segundo semestre de 1963, fui convidado para um encontro com David Capistrano na redação do jornal “A Hora”. Durante a conversa David relatou-me que o PCB estava precisando de um profissional remunerado que se dedicasse exclusivamente ao trabalho do partido no município de Jaboatão, com a tarefa de reorganizar e mesmo organizar as organizações de base operárias e de jovens e também no meio rural, com o objetivo de dar uma estrutura orgânica e funcional ao partido; e, portanto, disse-me ele que a atual direção municipal não tinha nenhuma sustentação real, em virtude de não existir partido organizado na cidade. Falou-me também que o partido já teve um profissional que fazia  trabalho político  no meio rural dos municípios de Jaboatão e Moreno, mas que este companheiro havia se bandeado pras Ligas, e se encontrava ora em Goiás organizando núcleo armado no campo sob a liderança de Francisco Julião e Clodomir Moraes. Vim algum tempo depois a conhecer esse companheiro por nome Elias, que me disse haver  entrado numa fria  ao aderir ao tal núcleo armado, o foquista Movimento  Revolucionário Tiradentes (MRT). Quanto ao núcleo dos ferroviários, David informou que não fazia parte do meu trabalho, pois logo que Manaçu voltasse de Moscou, onde fora pra escola de formação de quadros, ele se encarregaria da tarefa de reorganização. Além disso, eu deveria ajudar na organização da Conferência Municipal, que escolheria a nova direção do PCB no município e o delegado para participar da Conferência Estadual, pois o PCB no ano de 1964 estaria realizando o seu VI Congresso Nacional. David informou que CE  destinou a mim o valor de um salário mínimo, e que cobriria algumas despesas extras decorrentes do trabalho. Assim eu me tornei um profissional do partido, ao modo leninista.

Do núcleo dirigente municipal recebi algumas ligações no meio operário e no campo. No campo, lembro-me muito bem de Cirilo, sitiante, que ora, do seu antes pedaço de terra onde dispunha de mangueiras e bananeiras e cultivava roçado de macaxeira e mandioca, só lhe restava um pequeno quintal com uma jaqueira; o canavial cercara sua tapera e quase  entrava porta adentro. Cirilo se dedicava agora exclusivamente ao plantio e ao corte de cana. Cirilo era um tipo alto, esguio, pele amorenada crestada pelo sol, cabelos lisos, olhos negros, algumas rugas na face e um grosso bigode sobre a boca. Apesar dos seus cinqüenta anos aparentava ainda ser um homem bastante forte, curtido pelo trabalho duro nos canaviais. Cirilo era, sobretudo, uma figura humana extraordinária, pois seus companheiros de labuta e vizinhos sitiantes, a ele se referiam com respeitoso carinho e admiração; sua ligação com o PCB era antiga, cerca de mais ou menos trinta anos, pois me falara do seu envolvimento na rebelião de 1935 e de suas muitas prisões em decorrência de sua militância política. Cirilo foi então o meu principal ponto de apoio para que fizesse contato com os trabalhadores rurais que tinham alguma ligação com o PCB. Realizamos longas caminhadas nas estradas entre os canaviais das usinas Jaboatão e Muribeca. Geralmente por motivo de segurança os contatos eram realizados pela manhã bem cedinho, e durante a noite, após as oito horas. Todo o trabalho inicial foi feito a pé, e o ponto de partida sempre foi  a casa de Cirilo, onde me abriguei por alguns dias e noites. Voltei depois aos canaviais pra realizar as assembléias de organizações de base para escolha do delegado à Conferência Municipal.

Na cidade a coisa foi muito complicada. Os contatos eram feitos, marcava-se reuniões que não se realizavam, pois os companheiros não compareciam. Depois de muitas tentativas frustradas, consegui-se estruturar precariamente dois núcleos em locais de trabalho: na fábrica Portela e com os alfaiates. Nos bairros, José Napoleão (Dedé) encarregou-se dos núcleos de Cavaleiro e Prazeres. O núcleo estudantil bem ou mal já vinha funcionando, e tinha atuação regular no Diretório do Colégio Estadual de Jaboatão. E assim nos preparamos rumo à Conferência Municipal, e, de certo modo, eu havia cumprido o compromisso assumido com a direção estadual do PCB.

Após a realização das assembléias de organizações de base (OB), o CM definiu a data da Conferência Municipal, que foi marcada, salvo engano, para o mês de Janeiro de 1963. David Capistrano era o assistente do CE do PCB junto ao CM de Jaboatão, numa dessas reuniões fora definida a data da Conferência Municipal, mas a confirmação da data seria comunicada ao CE, alguns dias depois, pois havia algumas questões ainda pendentes a serem resolvidas, inclusive quanto ao deslocamento dos companheiros do campo e mesmo no que diz respeito ao local onde seria feita a reunião. Por decisão do CM, eu fiquei com a responsabilidade de comunicar com David para confirmar a data e o local, a princípio já definido para começo de Janeiro de 1964.

Lembro-me bem do que ocorreu. Eu estava participando de ativo da juventude do PCB para avaliar a atuação do partido no movimento estudantil, e a estratégia a ser definida para o próximo ano de 1964. O local foi o auditório da Secretaria Estadual de Educação, que ficava num prédio situado em rua próxima à Avenida Guararapes. Usei o telefone e liguei pra casa de David; ele atendeu e, então, como ficara combinado, eu comuniquei  exclusivamente a data, o horário e o local sem me referir onde, mas o que já fora acertado. A voz do outro lado da linha indagou a respeito da quantidade de participantes e fez menção a respeito do local. Eu fiquei frio e apreensivo e desliguei de rápido o telefone, e fui me informar onde morava David, pois eu queria ir até ele, por medida de segurança, para esclarecer o tal contato. Peguei um taxi e me desloquei até sua casa; ele me recebeu de pijama, e foi logo me pedindo desculpas por ter violado as regras de segurança ao me pedir informações que fugiam ao que fora antes acertado na reunião.  Dissipada a dúvida eu voltei tranqüilo para o Ativo Estadual de Jovens, onde me encontrava.

A Conferência Municipal de Jaboatão foi realizada com certo êxito. Compareceram os representantes dos núcleos  reorganizados da cidade e do meio rural: organizações de base de bairros, meio rural, operárias e de estudantes. Da pauta da reunião constavam: informes, discussão, eleições para o Comitê Municipal e escolha do delegado para Conferência Estadual do PCB. David Capistrano fez o informe nacional e estadual das atividades do partido e rápida análise da conjuntura política estadual e nacional; Dedé, por sua vez, na condição de atual  secretário político, fez um balanço das eleições recentes para prefeito e do trabalho do partido no município. Após os informes foi aberta a discussão sobre os temas. Nessa reunião eu fui eleito para o Comitê Municipal e para integrar sua Comissão Executiva; também fui escolhido para representar os comunistas do município na Conferência Estadual do PCB, prevista para maio de 1964.

Zezé da Galiléia e Julião

Por que não fui funcionário público estadual no governo Arraes

No segundo semestre de 1963, a Secretaria Assistente do Governo Arraes tomou a iniciativa de criar delegacias regionais, com a finalidade de descentralizar suas atividades no estado. Uma dessas delegacias teria abrangência nos municípios de Jaboatão, Moreno, Vitória de Santo Antão, Gravatá e Bezerros, com sede na cidade de Moreno. Lamento por haver esquecido o nome do bravo companheiro indicado pelo PCB para assumir a gerência da Delegacia, mas sempre me vem da lembrança o nome Severino Claudino; lembro-me ainda que ele havia sido vereador em Limoeiro, terra do coronel Chico Heráclito. Eu também fui indicado pra ser contratado como secretário da tal delegacia. Durante alguns meses exerci o cargo voluntariamente, pois a nomeação não saía, emperrada pela burocracia do estado. Não cheguei a receber qualquer remuneração pelo trabalho realizado. Os deslocamentos entre as cidades abrangidas pela Delegacia eram feitos num velho Jipe dirigido por Claudino, e as despesas com alimentação eram custeadas com suas magras diárias. Quando tudo parecia acertado, veio o golpe militar e eu tive que cair fora do estado. Na condição de secretário da Delegacia Sindical, sem nomeação oficial, cumpri algumas missões, entre elas destaco a mobilização de trabalhadores rurais da área para participar do comício realizado em Recife em comemoração ao primeiro ano do governo Arraes. Lembro-me também dos contatos com os galileus Zezé, Virgínio e outros companheiros do Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão. Lá também pude melhor conhecer Luiz Serafim, combativo ativista das Ligas Camponesas. O golpe militar de 1964, com a conseqüente cassação do mandato de Arraes, abortou minha carreira no serviço público do estado de Pernambuco.