quarta-feira, 13 de março de 2013

Artigos - Uma reportagem histórica do repórter Luís da Câmara Cascudo - Diógenes da Cunha Lima


Luís da Câmara Cascudo

Luís da Câmara Cascudo é reconhecido por obras fundamentais como “A História da Alimentação no Brasil”  e “Civilização e Cultura”, que exemplificam sua minuciosa atuação como etnólogo. Ele deixou como legado uma rica prosa em dezenas de livros, com ritmo ágil e uma intimidade divertida e doce ao falar do cotidiano brasileiro. Mas o que poucos sabem é que o mestre Cascudo começou como jornalista, aos 18 anos de idade, quando seu pai, o Coronel Francisco Cascudo, fundou um jornal para que o filho escrevesse. Nunca mais abandonou tal atividade, publicando artigos e relatos no “Diário de Pernambuco”, “Folha de S. Paulo” e diversos outros periódicos pelo mundo afora. Para ele, o repórter deveria ter toda liberdade ao fazer suas entrevistas, perguntando o que bem entendesse e relatando o que ouviu de acordo com sua visão dos fatos. Quando assumia o papel de entrevistado, por vezes chamava com humor os jornalistas de “meliante” (ou seja, aquele que não trabalha, malandro, vadio).

Nos primeiros anos da década de 1920 do século passado, Câmara Cascudo entrevistou Raimundo Nonato Pereira, natural de Acari, atleta, vitorioso em campeonatos de remo e natação. Durante a Primeira Guerra Mundial, ele se encontrava na Inglaterra, estudando e participando de campeonatos. Ao viajar no transatlântico “Amazon” - que contava na ocasião com apenas 24 passageiros -, naufragou quando a embarcação foi torpedeada na costa da Irlanda por um submarino alemão, em 15 de março de 1918, afundando em 15 minutos. No final do século XIX e primeiras décadas do séc. XX, a Grã-Bretanha era a maior potência mundial de navios de guerra, transformando, inclusive, alguns barcos de R.M.S.P. (Royal Mail Stean Packet - ou Mala Real Inglesa -, com serviço para a Costa Leste da América do Sul) para esse fim. O “Amazon” foi um deles. O primeiro foi lançado ao mar em 3 de janeiro de 1882, pegou fogo na Baía de Biscaia, causando 105 mortes. Em 1906, um novo “Amazon” surgiu, transformado em 1911 em cruzeiro de luxo, fazendo o verão na Europa e a rota de ouro e prata. Comportava 840 passageiros, sendo 300 de primeira classe, 70 de segunda e 500 de terceira. O submarino germânico, responsável pelo final trágico do “Amazon”, terminou por ser bombardeado e afundado pelo contratorpedeiro H. M. S. Moresby, que resgatou nove tripulantes alemães.

Toda essa perigosa aventura foi narrada detalhadamente na matéria “Desventuras da Guerra”, de autoria de Luís da Câmara Cascudo, que terminou por se perder. Quase um século depois, resgatada por Luizinho  (Luís G.M. Bezerra), passou para as mãos de Haroldo Pinheiro Borges, sobrinho do acariense entrevistado,  que era cunhado de Chicó Pinheiro, o “Senhor das Queimadas”, e irmão de Dona Zefinha. Haroldo transferiu o material jornalístico precioso para a presidência da Academia Norte-rio-grandense de Letras. Assim, publicamos a reportagem histórica na íntegra:

  

DESVENTURAS DA GUERRA

Luís da Câmara Cascudo

 

As desventuras da Guerra constituem hoje o nosso principal assunto. O que publicamos é uma interessante INTERVIEW com RAIMUNDO PEREIRA, filho do nosso amigo Cel. Joaquim da Virgem Pereira, natural do Acari, estudante de Comércio em “DOLLAR ACADEMY”, na Inglaterra, onde se demorou quatro anos e meio e que chegou a esta capital sexta-feira última, via Recife, pelo trem horário da Great- Western. Sabedores  de que aquele nosso coestadano aqui se achava apressamo-nos em visitá-lo ao domingo para que pudéssemos publicar, ouvindo de sua boca a história da catástrofe a que, com felicidade escapou juntamente com os seus companheiros de viagem e toda a tripulação do paquete torpedeado. É que tivemos o intuito de dar aos nossos leitores uma notícia circunstanciada e original do triste acontecimento já mais ou menos conhecido através da leitura das folhas que se ocuparam do fato.

RAIMUNDO PEREIRA tem dezenove anos de idade. É um belo tipo de homem forte, musculoso e portador de uma educação que se vai esmerando mui pronunciadamente, a qual foi adquirida quase que somente naquele elevado centro anglicano. Falou-nos com o seu sotaque britânico, vibrado sem pedantismo.

Saímos de Liverpool, direto para Pernambuco, quinta-feira, 15 de março, às 15 horas. O “AMAZON” conduzia vinte e quatro passageiros para o Brasil, entre os quais, do Rio Grande do Norte, eu e o Luiz Veiga Filho. Viajamos sem novidade, por uma tarde ameníssima. A noite veio e passou-se sem que se registrasse coisa alguma de anormal.

No dia seguinte, na sexta-feira, íamos à altura da Irlanda, a duzentas milhas de sua costa, ao norte. Eram 9 e 45 da manhã. Tínhamos acabado de almoçar e permanecíamos no convés. Eu palestrava, tranquilamente, reinando entre nós todos essa alegria que você sabe existir na convivência, a bordo. De repente, sentimos um tremendo choque. Desenrolou-se, imediatamente, o pânico, natural nesses instantes difíceis, mui especialmente em um naufrágio.

O jovem interlocutor deixou escapar dos lábios um expressivo suspiro, como que se desafogando de uma lembrança cruel, e continuou.

Oh! Meu caro, você não avalia como foi opressiva aquela emergência se as pode descrever. O homem que o experimenta chega a perder a luz da razão. Ouça-me, não me lembrei nem do bom Deus.

E entre parênteses acrescentou:

- É por isso que aquele que o não conhece, também não possui essa luz miraculosa, é um louco, é... um náufrago de outra espécie.

Em seguida ao choque sobreveio uma medonha explosão. Tudo estava perdido. Começamos, nós passageiros, a correr de um lado para outro do convés, gritando desesperadamente, dizendo não sei o que...

- E tiveram logo a ideia do que se tratava?

- Não. Eu lhe não afirmei que ficamos loucos? Quanto a mim, milagrosamente, posso dizer assim, aclamei-me um pouco e me lembrei de descer ao meu camarote, a fim de tirar de lá meu salva-vidas. Qual não foi, avalie você, o meu susto, quanto uma vez embaixo, tudo se tornou escuro, em virtude de se haver arrebentado, sem dúvida, a usina elétrica do “AMAZON”.

- A aquela hora havia luz?

- Sim, os camarotes dos transatlânticos, os que não deitam para bombordo, são iluminados durante o dia, por causa, não somente do frio, como também, porque, devido às conformidades do paquete, tudo ali são trevas em plena luz solar. E mais: escute, canos se arrebentando também, começaram a jorrar água quente por toda parte queimando-me todo. Perdi então a esperança de encontrar o meu salva-vidas. Foi um suplicio infernal. Aconteceu-me uma tremura e comecei a morrer. De nada mais me lembrei outra vez. Assim mesmo, dei com uma escada que subi OU QUE ME FIZERAM SUBIR. Vi o dia, tomei alma, esbarrei-me com os companheiros que continuavam na mesma balbúrdia, agora à procura de escaler, fui para o meu. Neste haviam de embarcar vinte pessoas, inclusive o respectivo comandante que segundo estava previamente determinado quando partimos de Liverpool. Entre essas vinte pessoas encontrava-se o Cônsul argentino em Londres, Sr. H. L. Mayer, que viajava com destino ao seu país. Sentei-me por detrás de um marinheiro. Este, havendo recebido uma contusão, não pode mais remar. Tomei-lhe o remo e o manejei até que fiquei exausto.

- Radiografou o “AMAZON” no momento do perigo?

- Sim. Estávamos vogando a espera do socorro. De repente, avistamos, no horizonte dois pontos negros.

Eram duas naus que a toda pressa vinham à nossa procura. Eram sem dúvida, DESTROYERS ingleses.

- Uma vez no escaler tiveram a ideia do ocorrido, isto é, avaliaram o que tinha acontecido?

- Sim, fora não restava dúvida, um submarino que nos torpedeara pela popa>

- E o AMAZON?

- O AMAZON, o estávamos vendo a uma certa distancia. A elegante nau se submergia, aos poucos. Parecia, haver nos concedido tempo apenas para tomarmos o escaler, porque, apenas dele nos apoderamos, dentro de poucos minutos foi ao fundo, deixando, antes de fazer na amplidão do oceano se ouviu um formidável estrondo acompanhado de uma pesada nuvem de fumo, de várias cores o que me representou a agonia de um gigante de aço a borda do abismo de seu tumulo verde. Foi o belo horrível do drama.

- Estavam todos tranquilos já?

- Que esperança! O nosso temor foi, então, com a suspeita de que emergisse o submarino inimigo e nos canhoneasse como é costume.

Isso, porém, não se deu, penso, devido ao fato de haver aquele pressentido a aproximação dos DESTROYERS que chegaram logo.

Um desses DESTROYERS nos recolheu, enquanto o outro dava caça ao submarino. Este último DESTROYER lançou ao mar quatro bombas “Depitle” que conseguiram o desmantelo das máquinas de ar da perigosa arma naval.

Ao chegar o “monstro” à tona tratou logo de desfraldar sua bandeirinha branca, pedindo paz. Ora o amigo já viu tamanho civismo.

E então?

- o nosso DESTROYER fez lhe fogo incontinente. A arma inimiga estava esfarelada, foi a pique tão rápido como um raio, se assim me posso exprimir.

- Os seus tripulantes... os alemães...

- Eram trinta e três ao todo. Desses morreram dezessete, escapando o resto. O DESTROYER em que eu me encontrava recolheu cinco, dentre os quais o comandante que embora não se achasse ferido, faleceu de comoção, sendo o seu cadáver atirado ao oceano, após a competente inspeção médica. O outro DESTROYER recolheu os onze náufragos restantes.

- Como receberam a bordo os náufragos do “AMAZON”?

- Com muito carinho. Vendo-nos molhados por completo, e tiritando de frio, nos fizeram tomar banho morno, deram-nos roupas, camas, refeição. Excelente tratamento tivemos.

Eram 6 horas da tarde.

Depois daquele triste incidente a nós causado pela audácia da raça alemã, quando tudo voltou ao seu estado normal, uma saudade da Pátria querida me despontou funda ao peito. Lembrei do Brasil que longe estava e, pela Terra da Santa Cruz; o amor intenso me reanimou as forças como a influência de um anjo benfazejo pairando diante de meus olhos, como a me abençoar, suspenso sobre as espumas do fosforescente da região liquida por onde a Inglaterra me conduzia a um porto seguro.

Seguiram...

Para a Irlanda. Desembarcamos em Londonferry.

- Depois...

Pelo Carneamia fui para New York onde desembarquei. Da Capital IANKEE vim pela Saga até ao Recife, onde desembarquei com a ânsia de abraçar meu pai que ali me esperava.

Hoje, bem vê conversamos juntos, longe, bem longe das coisas do Velho Mundo que ondeia na ambição e no orgulho.

Nesse instante o nosso jovem amigo foi chamado para o almoço, pegou-nos pelo braço e sorriu, flegmaticamente convidou-nos:

- If you please...

- Ao que retorquimos gostosamente: All right.

Em Natal trabalhou por largo tempo como pai, no seu escritório comercial instalado no Bairro da Ribeira, à rua Frei Miguelinho, ajudando-o nos seus negócios de produção e exportação.

Adepto do remo, RAIMUNDO foi atleta do Centro Náutico Potengi, e destaque em todas as provas em que participou ao lado do capitão-tenente Anibal Leite Ribeiro, o maior incentivador do remo no Rio Grande do Norte e fundador do glorioso Centro Náutico Potengi (3/10/1915), de Solon Aranha, Antonio Duarte, Humberto Nesi, Silvino Lamartine, Julio Meira e Sá, Edgar Homem de Siqueira, Clóvis Lamartine, Angelo Pessoa, José Paes Barreto, José Elpídio dos Santos e Pedro Ferreira da Silva, atletas do CNP que muito lutaram pelo remo no Estado.

Em 17 de outubro de 1920, o Rio Grande do Norte, representado pelo Centro Náutico Potengi, esteve presente pela primeira vez ao Campeonato Brasileiro de Remo, realizado na entrada do Botafogo, no Rio de Janeiro, com duas guarnições, sendo que naquele dia, a guarnição da Iole a 4 remos, composta por Anibal Leite Ribeiro (Patrão), José Paes Barreto (Voga), RAIMUNDO PEREIRA ou RAIMUNDO DAS VIRGENS como era mais conhecido na intimidade (Sota Voga), José Elpidio dos Santos (Sota Proa) e Pedro Ferreira da Silva (Proa), obteve o 3º lugar, ficando adiante de São Paulo (4º), Bahia (5º) e Pará (6º). Distrito Federal e Rio Grande do Sul foram os primeiros. A família ainda guarda algumas medalhas conquistadas em disputas memoráveis.

RAIMUNDO PEREIRA DE ARAÚJO, casou em Acari a 12/12/1922, com Julieta Bezerra da Nóbrega, nascida a 21/04/1898, neta do Cel. Silvino Bezerra de Araújo Galvão, inconteste Chefe Político do Seridó e Vice-Governador do Estado, na República. Julieta com problemas cardíacos, faleceu em Campinas(SP), em 01/07/1970, e do matrimônio com RAIMUNDO teve os seguintes filhos: Maria de Lourdes, residente em Rio das Ostras (RJ), casou com o Eng. Nelson Meira de Vasconcelos, funcionários da Base Aérea de Parnamirim, já falecido; Elga e Jessy, solteiras e residentes em Campinas (SP); Margarida, casada com o médico pediatra José Ubarana, também residente em Campinas (SP) e Irecê, casada com o comerciante Moacir Dias de Melo, residente em Campinas (SP). Iberê e Francisca foram as filhas que tiveram morte prematura. Todos os filhos do casal RAIMUNDO e Julieta nasceram em Florânia (RN).

Com o falecimento do seu pai em 07/08/1932, RAIMUNDO foi residir em Florânia, para administrar mais de perto a sua propriedade “SACO DE FEIJÃO”, que ainda em vida, o Cel. Joaquim da Virgem lhe doara, como era do seu hábito presentear os seus filhos, “SACO DE FEIJÃO” tem no agro-pecuarista Waldemar Dantas, seu proprietário.

Em Florânia, RAIMUNDO residiu por mais de dez anos, onde granjeou a simpatia da sociedade pelo fino trato, por sua operosidade e pela atenção maior pelos mais necessitados.

Durante o período do Estado Novo, RAIMUNDO PEREIRA, um homem simples, trabalhador e de caráter íntegro, foi nomeado pelo Interventor Rafael Fernandes Gurjão, para gerir os destinos da Prefeitura de Florânia, de 19/12/1937 a 19/08/1942, substituindo o Prefeito Clementino Araújo.

Naquele cargo, apesar de alguns anos difíceis em que as grandes secas assolaram a região, RAIMUNDO PEREIRA lutou desesperadamente para assistir aos flagelados, utilizando até mesmo os recursos próprios, que já não eram muitos.

Na sua gestão promoveu uma série de benefícios no seu Município, destacando-se: aquisição de transportes para remoção de lixo domiciliar na povoação de São Vicente; instalou...

Diógenes da Cunha Lima, poeta, escritor, Presidente da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras.

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